Monodiálogo intermitente

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Monodiálogo intermitente foi produzido por um grupo de anônimas e anônimos, a maioria insatisfeita e algumas resignadas ao status quo no Brasil. O pano de fundo deste rascunho de monólogo combinado com quase-diálogo é a rotina cotidiana nas cidades brasileiras no começo da segunda década do século XXI.

Personagens:
JOÃO URIAS, insatisfeito incansável
SILVA SIMPLORIUM, insatisfeito e megasenista
EUSTÁQUIO, tenta ver o bright side da vida
LUIZA LARA LÁ, típica política habitante do ABCD paulista
NICA, revoltada a ponto de uivar
JULIE DILLARD, transforma observações do status quo em linhas poéticas
TANGERINE, prefere não lamentar e tocar em frente
CINTIA, satisfeita com o status quo, aceita sua condição
NYCA, alterna revolta com o status quo com inspiração musical para seguir em frente
CONFÚCIO, passou desta pra melhor e pondera sobre os pros e os cons das coisas

 

Ato Um (o único, por enquanto)
Determinado apartamento nos Jardins, em São Paulo, onde as personagens estão reunidas, é parte da indefectível paisagem paulistana de blocos e blocos de apartamentos habitados pela classe média aprisionada pelo terror de cair para a classe baixa e pela ânsia de subir para a classe alta. Esse modelo de medo e ansiedade classemediana é também arquétipo incrustado no inconsciente das personagens deste texto: Assim como os habitantes dos Jardins, a maior parte das personagens deste texto vivem para cumprir seus papéis automatizados de guardiãs e guardiões da ordem, dos bons costumes e da moral cristã, três funções que definem a classe média brasileira. A versão de verdade expressa na fala de cada personagem, por mais lírica que seja, é também parte do retrato de saturação dos tempos atuais, de consumo desenfreado e fina linha entre público e privado que alimentam o vazio criado pelo solidão e pelo consumo, somado ao estupor da medíocre classe política brasileira. Do apartamento, cada personagem dirige-se ao seu cenário mais conveniente e inicia sua parte neste imbróglio real demais para ser fantasia.

 

 

João Urias está sentando em um tamborete numa sala quase vazia, ao cair da tarde. Ele fala para a audiência, mas não olha para ela.

URIAS: Trabalhando de sol a sol pra fazer o quinhão reduzido, talvez jamais terei a chance de arrefecer a vontade de levar mais, de encher minhas burras também, a exemplo da minoria que nasce montada na grana dela e das demais. Já foi o tempo, se houve, em que gostaria de viver em um Brasil para brasileiros e brasileiras. Se pudesse, venderia minha parte e partiria desse pra outro. Essa bosta de país parece encomendada. E não me venha com discurso elitista de que cada um faz seu próprio destino, de que o sol nasce pra todos. Até nasce, para uma minoria, mas para o resto como eu é preciso fazer nascer. E exceção não entra no meu dicionário de regra. Sou regra de cabo a rabo. Nasci em uma país malufiano, mas ainda não encontrei o caminho do pote de ouro.

A "Simphony No. 6 in F major ("Pastoral"), Op. 68", do Beethoven, começa a tocar. ]

Estou furioso? Sim, muito, e me contento em estar, e até sorrio da minha pieguice devido a falta ululante de dinheiro extra e do meu humilde desejo de uma vida simples e anônima, de ir pedalando com minha esposa até a venda perto de casa e voltar com as cestas das bicicletas contendo duas garrafas de Armand de Brignac Gold Brut, queijos, embutidos, faisão e pavão defumados, azeite, pães, chocolate e frutas, enquanto moramos em uma cidadezinha simples e perdida entre os campos de alfazema no sul da França.

A voz do Simplorium torna-se audível, no topo da montanha mais alta vislumbrando planícies. ]

SIMPLORIUM: Passei 50 anos em prece e nunca fui atendido. Eu não sabia realmente o que eu queria. Agora no fim do fim eu sei o que devia ter pedido. Fui muito vago em minhas lamentações. Agora vou direto ao ponto e espero ser atendido. Brotou-me da mente mais pura o seguinte mantra: " Ganhar na megasena com seis números". Se eu for atendido uma ou 20 vezes já fico contente. Aqui nessa brisa pura da montanha estive a refletir : para quê crer em um ser onipotente se seu poder não poder fazer com que as bolinhas dos números que jogo se alinhem uma a uma na conjuntura dos astros e me faça esse grande favor? Pra quê preciso dele se vou morrer pobre e medíocre? Fico com minha própria impotência... Nem mesmo tenho coragem de me atirar daqui... " Esses moços, pobres moços. Ah, se soubessem o que eu sei..."

De supetão, entra em cena Eustáquio, na mesa do bar, tomando mais um gole de água. ]

EUSTÁQUIO: É, Simplorium, ouvi falar outro dia que o caminho é de pedra pra maioria de nós. Só posso imaginar sua subida pra essa montanha. Mudando de pato pra ganso, não sei, mas parece desatualizada essa história de cultivar o próprio pomar. Pra começar, nem pomar a gente quase vê mais, só as frutas embaladas, e transformar essa imagem bucólica e pastoral em uma citadina, é um tremendo esforço, convenhamos. Mas só de pensar em pomar, a vida parece ficar mais leve, o ar mais puro, o céu mais azul, com os pintaroxos cantando nas árvores. Por outro lado, quando penso em cidade, só aparece conta pra pagar, gasolina pra pagar e rua esburacada. "Cultive sua própria varanda", poderia ser uma alternativa, ou a sala, ou o alpendre, ou o quintal todo cimentado, ou a laje. Taí, laje pode ser uma boa alternativa a pomar; pelo menos não terei que carpir, semear, aguar, proteger, colher e mais uma porção de outros verbos.

Funk carioca começa a tocar via USB conectado a uma caixinha no pé da porta do barraco do Eustáquio. ]

Na laje, tudo o que preciso é de uma mesa e cadeiras de plástico, isopor cheio de cerveja, espetinho de gato na churrasqueira de meio tambor, caixa d'água pra refrescar e funk pra dançar.

Parada no ônibus no trânsito em SBC, voltando do trabalho, aparece Luiza Lara Lá, ofegante. ]

LARA LÁ: Eustáquio, eu que não largo a cidade e que venham as contas porque vou pagar todas! Acabo de receber um aumento que vai quintuplicar meu atual salário nos próximos dias (não poderia dizer a verdade a Eustáquio, de que, nem sequer sei dizer quantas vezes a mais do salário vou ganhar, não sei como fazer esta conta!). Tanto perseverei que, finalmente, consegui. Poder, eu consegui... nem fui eu mesma quem cuidou de todas as manobras, mas, se acharam por bem me usar, eis-me aqui! Era o que eu queria, é o que quero. Posso não ter estudado, mas sou esperta. Ahhh, meus pensamentos não sossegam imaginando tudo que poderei fazer nos próximos dias e que jamais imaginei pudesse fazer algum dia. Neste momento, não consigo me importar com o cheiro azedo das axilas das pessoas que me fazem companhia... afinal, esses companheiros e companheiras trabalharam o dia todo, tem que feder! É noite e também trabalhei o dia todo, mas não estou fedendo, e também não sinto cansaço; apenas fiquei rouca, de tanto falar e falar, conforme me orientaram. Meu corpo está extasiado de uma sensação tão boa que não consigo explicar. Sei ainda que, ao chegar, adentrarei a madrugada planejando com minha família a mudança de nossas vidas. Meu filho vai deixar de ser motoboy, eu garanto! Que poder é esse que o dinheiro exerce sobre mim? Que felicidade é essa que o dinheiro traz? Só sei de uma coisa: este sentimento bom eu não quero mais deixar de sentir e, daqui para frente, farei o que for preciso, qualquer coisa, para não perdê-lo.

Nica entra de supetão, uivando de raiva e vindo de uma escalada de ruas montanhosas e sinuosas, na volta do trabalho. ]

NICA: Que felicidade é essa não sei, Luiza. Mas uma vez me contaram que a paciência é uma virtude. Tenho a cruel certeza e a real constatação de que tinham razão. Por isso, sigo por essa estrada, destilando rios de suor e lágrimas de incertezas porque em algum lugar terei que chegar, seja ele claustrofóbico ou arejado, desumano ou habitável. Sou protagonista ativa de quase todos os percalços dessa caminhada alienante e consciente e, diante dela, resta-me uivar.

As luzes se apagam e uma única lâmpada se acende, no meio do palco, focando em Dillard, poet-in-residence, que há meia hora estava tentando desviar das esburacadas calçadas paulistanas. ]

DILLARD:

De montanha à laje
o que resta
Lamentações

Antes de dormir recordações
da telha de Brasilit
da chuva sem limite

De montanha à laje
o que resta
lamentações recordações
Abra os olhos que é segunda

Todas as luzes se acendem e aparece Tangerine, vindo da lateral do palco. ]

TANGERINE [ Na noite passada, deitada e pensando ao som do tic tac frenético do relógio na cabeceira. ]: Sabes Julie, quando falas de lamentações, não consigo compreender o que dizes, sou tão ligada em tempo, sou tão ligada em vida, tão ligada no agora que não permito-me lamentar... Não permito-me porque não acho meus motivos suficientes para um movimento destes, para uma virada destas. Pergunto-me se um dia isto me acontecer, será que conseguirei voltar no caminho de antes, será que me perderei no tempo, será que quando olhar para trás a mata já estará fechada e tarde demais para voltar? Às vezes aquele aperto no peito vem como uma coca-cola quente explodindo quando aberta, mas quando ouço o barulhinho do gás, daquela pressão, prendo a respiração e fecho novamente a garrafa para não ver a sujeira voar. Tenho medo do tempo, medo de perdê-lo, mas também penso que posso estar perdendo-o quando evito os sentimentos que podem mudar o meu tempo...

Alegre e de bem com a vida, surge Cintia, em pé na fila do banco, escrevendo via celular. ]

CINTIA: Sinto-me envergonhada por não estar tão descontente. Talvez isto ocorra por eu ser mais jovem e ainda ter o espírito cheio de otimismo e de esperança. Ou talvez por eu ser alienada, alguém que atualmente não assiste o noticiário, que não lê os best-sellers, que não acessa a janela azul com frequência. Alguém que vive um dia de cada vez e aceitando o que a vida lhe impõe. Ao mesmo tempo, preocupo-me em extrair as sensações possíveis dessa estadia mundana. Por exemplo, neste momento estou imaginando o que é possivel sentir da espera ... além da impaciência. Talvez por simplesmente ignorar as influências governamentais e políticas, por tentar encontrar consolo na lembrança das figuras (de quando ainda via o noticiário) daqueles que nascem em meio a guerras e pensar que o destino me trouxe sorte e, portanto, razão para seguir sorrindo, é que sigo. Mas então, por que sentir-me envergonhada?

Música festiva começa a tocar, e Cintia inicia uma dança improvisada. ]

NYCA [ Entra em cena, desconcertada com o calculismo político de Luiza Lara Lá. ]: ÊÊÊ Luiza Lara Lá que felicidade heim?!!! Pela sua fala: "Poder, eu consegui... nem fui eu mesma quem cuidou de todas as manobras, mas, se acharam por bem me usar, eis-me aqui! Era o que eu queria, é o que quero. Posso não ter estudado, mas sou esperta," só posso concluir de que vc é uma "laranja" que deu certo, se deu bem! Sorte a sua.....só não sei até quando! Por outro lado, eu que estudei e estudo bastante, a cada dia aumenta em mim a sensação de que não sou tao "esperta". Trabalho das seis da manhã à meia-noite diariamente numa jornada tripla e nem de longe vejo perspectiva do meu salário quintuplicar, nem sequer dobrar! É como diz a música:

O refrão da música "Vida de gado", de Zé Ramalho, começa a tocar.

"Eeee, Ôôô vida de gado
Povo marcado e,
Povo feliz......."

Não tô feliz não! Puta que pariu!

Compenetrado enquanto preenche o décimo-primeiro papelote da Megasena, Simplorium dá um pulo e grita. ]

SIMPLORIUM: “É o diabo no meio da rua nu mei du redimuin” No meu tempo parece que era mais fácil sair da miséria. Havia vários Faustos que faziam o tar do pacto com o coisa ruim. Hoje até o diabo anda meio sumido. Só sobrou a Terra do Sol. Acho que o último que se encontrou com ele foi o Glauber. Ou ele sumiu ou sumiram com ele da gente. Monopolizaram o cramunhão. É preciso encontrá-lo pra que ele ouça meu mantra superpop : “Quero ganhar na megasena com 6 números”. Não adianta ficarem esfregando as mãozinhas de contentamento. Seu eu ganhar vocês nem ficarão sabendo. Vão lamber sabão.

"Calix Bento", de Tavinho Moura e interpretado por Pena Branca e Xavantinho, começa a tocar no sistema de som do teatro. ]

CONFÚCIO [ Um vivo-morto em algum lugar do espaço ou da terra, surge do fundo do palco, em meio a uma nuvem de fumaça de gelo seco. ]: Eu fico aqui a refletir, quantos momentos da vida eu vivi! Estava sempre na busca da grana como João, vivendo em um país parecido com o dele, achava que somente o meu era pior, mas agora vejo que o que eu habitava se parecia com o dele. Buscava preces como Silva, consultando o Oráculo para saber em que caminho seguir. Com a ajuda do alto consegui realizar os meus sonhos, comprei uma enxada, construi minha casa, comprei uma lata, adquiri um carro, comprei uma fachada, e tive uma empresa, encontrei uma flor, e eu a chamava de Princesa. Um dia eu percebi que quanto mais dinheiro eu persigo mais tenho que trabalhar, e me perguntava sempre "Como conseguir a vida mansa que todo homem rico eu via desfrutar?". Resolvi ter vida mansa, como a do Estáquio, e vi minha qualidade de vida despencar, procurava por dinheiro para a vida estabilizar. Cheguei a pensar "No que minha vida mudou? Ah, agora sou pobre de vida mansa". Mas não é isso que queria, queria vida mansa com muito dinheiro, pois não suportava barriga vazia. A angústia me tomou, e da vida eu desisti. Hoje estou aqui desse lado, relatando a vida que perdi. Conto essa história pra vocês da Terra refletir que tudo o que tive permanece ai. Faço uma pergunta para reflexão: "Vale mesmo a pena juntar dinheiro em um mundo de ilusão?" Eu não sei, porque queria vida mansa, mas não queria trabalhar, mas para ter a vida ganha muita charrua eu tinha que empurrar.

Em pé na cozinha, Urias toma um gole de café requentado e dirige-se ao Confúcio. ]

URIAS: É, Confúcio, em parte faz sentido tua parábola. Ao mesmo tempo, a pessoa que ainda possui olhos para ver e ouvidos para ouvir pode chegar à conclusão de que a saturação da semioticidade impertinente assolando os sentidos, misturada a uma grande placa visível a quem quiser ver, com os dizeres "ACESSO RESTRITO PARA QUEM PODE, NÃO PARA QUEM QUER", é banho de água fria em quem tem apenas uma vida pra viver, mãos nuas e pontas de faca pra esmurrar, como é o meu caso. Desta feita, ignorar essa realidade por ignorar não é opção pra mim (não é a mesma coisa que "arte pela arte"). E o que isso gera? Frustração, ansiedade, herpes, sensação de não pertencer. Tentar eu tento, mas ainda não consegui encontrar ou fabricar alternativa pra essa minha corrida de rato de laboratório, pra encontrar o EXIT sign, ainda em vida, dessa corn maze fabricada pelas minhas colagens do mundo exterior terreno, minha única referência. Canso dessa rotina de interpretar o mundo em que vivo (e é o que me resta, muitas vezes); o que quero e preciso é transformá-lo, pelo menos o meu---e não há transformação sem acumulação de capital, a não ser para ingênuos ou via discurso da elite econômica. De certa forma, meus ouvidos ouvem e meus olhos vêem o país das maravilhas da Alice, enquanto minha mente e meu corpo padecem com a lógica absurda desse buraco de coelho.

Não ligando para a digressão do Urias, Simplorium continua atento aos seus números, e já na bancada da lotérica. ]

SIMPLORIUM: Infelizmente, não sou tão mau assim. Por isso tenho uma proposta salvadorenha, soteropolitana. Vou montar uma seita. Eita! Será simplis simplorium. Não teremos templo ou coisa que o valha. Já que toda seita envolve grana a nossa não será diferente. Nos encontramos em pensamento, uma vez por semana, na lotérica mais próxima. Fazemos uma fezinha. Entoamos o mantra superpop “Quero ganhar na megasena com 6 números”, cruzamos os dedos, fazemos figa, mandinga, patuá. Cada um se apega com seu orixá, deus-elefante e otras cositas mas. E a gente vai levando. Bolões são permitidos e recomendados. É uma seita democrática capitalizante, um pode ser deus para os outros, desde que leve a bolada. Se calhar! Nos encontramos no DOM para o almoço de confraternização. O primeiro que ganhar tira os outros da escuridão. A vida tá braba? Mantra nela!

Cintia continua com sua visão satisfeita do que vida lhe permite. ]

CINTIA [ No supermercado, adquirindo um pequeno vaso de violetas ]: Ouço vocês falarem de dinheiro, de mega-sena, de felicidade... Mas afinal felicidade é ter conforto, luxo, qualidade de vida, ou é não ter preocupações? Se eu não me preocupar em ficar rica, então serei feliz? Nos submetemos à amargura, mas é uma questão de treinar o cérebro. É certo que sem dinheiro eu não poderei viajar, não poderei acompanhar a corrida da tecnologia, não poderei provar dos embutidos, vinhos, chocolates e perfumes da França. Essas sensações eu não terei. Irei somente aonde meus pés me levarem, comerei somente o que puder pagar no mercado, meus aparelhos serão sempre como as sandálias que pedia a minha mãe, ela só podia compra-las quando minhas amigas já haviam se cansado de usar aquele modelo no verão passado, e ao invés de rosas colombianas eu compro violetas, que é o mais próximo que eu posso chegar das flores, com 2 reais. Aprendo a apreciar as virtudes da violeta sem deixar de almejar uma flor kadupul, por exemplo. Mas então, me conformo com o que tenho ou morro tentando enriquecer?

Dillard continua exortando todos a removerem a fina camada de véu que cobre a visão dos passíveis de alienação. ]

DILLARD [ A andar por um dos poucos oásis paulistanos, o Ibirapuera, ainda que já cimentado em excesso. ]: 

Urias, Simplório, Estáquio, La La Lá, Mica, Tangerina,
Oh, Cintia-me confuso!

Eu, tu, eles, nós e vós juntos
escondam as ansiedades do Urias
Tenham compaixão da simplicidade do Simplório que nega a mega

Estocado de desejos
de sombra e água fresca, Eustáquio

La, La, Lá que vida boa
como nunca antes na história desta Luiza Lara Lá

Micos, quantos são eles Nica?
ao andar diariamente nas estradas que te levam

Doce delicadeza da Srta. Tangerine
só com a juventude de vida

Oh Cintia, deves mesmo sentir-se envergonhada
casa pra cuidar, contas para pagar

Até tu confuso Confúcio
que amargura
Pense, estamos naquela época do ano de "Merry"
hipocrisia

Feliz da vida com o acerto da Megasena, Simplorium larga tudo e se muda de mala e cuia pra Santorini e de lá fala de dentro de uma piscina com borda infinita para o Mediterrâneo. ]

SIMPLORIUM: Há uma brincadeira que sempre quis realizar: brincar de ser pobre. Viajar de classe econômica para ver como os pobres são tratados. Mas voltar de primeira classe superluxo para ver se meu dinheiro é valorizado. Essas historinhas de milionários que se passam por mendigos na realidade é para tripudiar os coitados e não para viver uma experiencia autêntica. Pois sabem que no final de tudo haverá uma banheira com sais e toalhas quentes esperando por eles. Lavou está rico de novo. Me imporia um anonimato voluntário e consciente, já que os famosos inventaram a fama para seu próprio consolo por não saberem desfrutar de suas fortunas. Há inúmeros milionários anônimos por aí, eles não são bobos, sabem o que fazem. Olham para seus parceiros ricos e dizem: "Pai , perdoai-vos. Eles não sabem o que fazem." Acho a duração de apenas um dia está bom para a brincadeira.

Enquanto isso, Eustáquio, vivendo em outra encosta, a do Rio de Janeiro, neste momento está na laje do barraco, dias antes da favela vizinha pegar fogo, com um livro estranho em uma mão e um pedaço de churrasco de gato na outra, enquanto olha pra laje da frente, onde acontece uma festa de batizado. ]

EUSTÁQUIO: Minha gente, pense comigo, mas que história mais estranha é essa, essa coisa de solilóquio desse Shakespeare pra um tal de Hamlet, vocês já viram? Ler uma coisa dessa só pode ser projeto desse brasileiro burro do meu irmão, se esforçando pra pagar de inteligente pros gringos que sobem aqui. Decerto, o que talvez ele quer mesmo é picar a mula desse brazilzão sem conserto, mesmo às custas de perder esta vista iluminada da Baía de Guanabara. Não, por favor, veja esses garranchos sendo proferidos por esse tal de Hamlet e me diga se você concorda comigo (parece que o cara não desembucha):

Eustáquio lê o solilóquio "To be, or not to be", de William Shakespeare. ]

"To be, or not to be, that is the question:
Whether 'tis Nobler in the mind to suffer
The Slings and Arrows of outrageous Fortune,
Or to take Arms against a Sea of troubles,
And by opposing end them: to die, to sleep
No more; and by a sleep, to say we end
The Heart-ache, and the thousand Natural shocks
That Flesh is heir to? 'Tis a consummation..."

Não vá me dizer que você concorda com o baba-intelectual do meu irmão querendo se fingir de inteligente, pelo amor de Deus. Quer saber de uma coisa, vou é fazer uma concorrência pra esse tal de Shakespeare e melhorar o texto dele com uma batida funk pra meu texto original, no melhor estilo Mc Marcinho:

Com a música sendo iniciada com batida clássica de funk carioca, Eustáquio começa a cantar de improviso. ]

"Você disse que não era e eu até acreditei
Agora vejo que é mentira e já sei o que fazer
Cada macaco no seu galho
Não tô aqui só pra morrer
Tua carne é de segunda e é você quem vai perder
Ser! Ou não ser! Ser! Ou não ser!
[ Batida funk é intensificada. ]
Sê rê rê rê rê rê rê sê
Sê rê rê rê rê rê rê sê
Sê rê rê rê rê rê rê sê
Sê rê rê rê rê rê rê sê
Ser é a questão - alô favela do Cruzeiro!
Sê - sê - sê - sê - sê - sê - sê - sê - sê
Sê, sê, sê, sê, sê, sê, sê, sê, sê..."

Mudando os pontos cardeais para o litoral paulista, Nyca come uma pera na cozinha da casa, de cujo alpendre é possível ver a majestosa Serra do Mar, e busca forças para continuar. ]

NYCA: Feriado, dia nublado, pensei: vou descansar, não vou fazer 'nada' hj. Não passaram 20 minutos e eu já estava mergulhada em meus afazeres sem fim. Apesar de não ter folga, estava contente, cansada mas contente! Animada com um novo horizonte que se abre...e veio em mente varias canções, dentre as quais destaco esta:

[ "Siembra", de José Alberto Fogaça Medeiros e Vitor Hugo Alves Ramil e interpretado por Mercedes Sosa, começa a tocar no USB player chinês de Nyca. ]

"Tenemos que seguir compañero miedo no hay por el
camino cierto unidos para crecer y andar
Vamos a repartir compañero el campo y el mar, el pan,
la vida, mi brazo, mi pecho hecho para amar..."

Acabando de ouvir "Siembra", Tangerine pondera sobre os por quês da rotina cotidiana, um dia depois do outro. ]

TANGERINE [ No metrô vazio ouvindo Beatles no iPod e assistindo mais um filme do Nicholas Cage.]: É quinta a noite, feriado prolongado para alguns. O filme passa na TV gigante com imagem e som em alta definição que ajudam a intensidade das emoções que o Nicholas interpreta em seus personagens a serem ainda mais reais. Então, isso tudo me liga na real intensidade em que encaro alguns fatos da vida, ou melhor, a intensidade em que encaro a vida. O medo ainda não me proíbe de arriscar, de fazer diferente do que está encrustado na sociedade. O pior disso tudo é manter o pé no chão tendo a consciência de que o sonho pode virar pesadelo, mas ainda assim, não consigo parar. Acho que é mais ou menos isso que os motoqueiros devem sentir, aquela vontade de não parar nunca mais de correr! Ok... essa corrida toda para aproveitar o tempo. E que tempo é esse? Que pessoas são essas? Que mundo é esse? Pq tem que ser assim? ...Essa vida sempre será um porque incessante!