Gpx matrix

  • Postado por Ran

Tudo começou quando a Lu e eu entramos no carro do Pio, que estava nos esperando na Jaú, a uns 200 metros da JEL 712. Crentes que nosso primo sabia de cor e salteado o caminho pra Guaxupé, para onde estávamos rumando por volta das 18h00 daquela sexta à noite, bastou entrarmos no carro e ele nos perguntar sobre a melhor rota a tomar. Como sou parcial em relação a GPS, haja visto o dia em que a mulher dentro do GPS do carro do Jean pediu para virarmos à direita em pleno retão sem cidade na Anhaguera, pensei 'porque não imprimi a rota no Google Maps'?

Então, o carro começou a rodar e nossa única alternativa foi eu informar o GPS sobre nosso intento, chegar à terra das abelhas. E foi aqui que a vaca começou a ir pro swamp. No entanto, devido nossa exasperação naquele momento (imagine Sampa às 18h00 de sexta-feira...), não demos muita bola para o GPS querendo suicidar uma curva à esquerda em plena Alameda Campinas. Em seguida, apareceu um motorista de táxi, o Pio fez a pergunta clássica e a voz do taxista nos levou para uma direita na 9 de Julho.

Curva vai, curva vem, fomos nos embrenhando 9 de Julho adentro, túnel, rua aqui, rua ali e bum! Não fazíamos a menor ideia de onde estávamos, já que, com a idéia do GPS de descer a Campinas agora comentada e analisada, ele ainda estava vivo, mas jazia quietinho, longe dos nossos olhos e pensamentos desconfiados. Paramos em um posto de gasolina e o frentista sugeriu pegarmos a Avenida São João e "ver o que acontecia". Mais ou menos localizados, voltamos a enxerger o GPS, que aparentava estar acompanhando nossa nova rota. Mas bastou mais uma sugestão suspeita dele e a consequente perdida nossa, em uma rua que não conseguíamos ver nem o nome, pra coisa começar a degringolar novamente. Felizmente, eis que, da altura da quase indisponível sinalização noturna paulistana, lemos o nome que àquela altura era como cobertor grosso pra morador de rua em noite de garoa: ANHANGUERA (é certo que fomos via Bandeirantes). Não desgrudamos um segundo das poucas vezes em que esta placa apareceu pra nós, até cairmos na Avenida do Estado. A partir daí, a viagem foi tão fácil quanto saber pelo cheiro que estamos passando pela Marginal Tietê ou Pinheiros.

Chegando a downtown Campinas, fomos nos orientando via celular com o Jean, que jurou que nos aguardava na calçada do prédio onde ele mora (não precisa dizer que ao chegarmos em frente ao prédio ele não estava na calçada... êita Jean pra se aprontar igual noivo em dia de casamento). Antes de chegarmos à José Paulino do Jean, o GPS nos ajudou a se perder no começo desta rua. Quando demos por nós, estávamos rodando no que bem que poderia ser uma boca de fumo na ponta setentrional da José Paulino. Pedi ao Pio afundar o pé no acelerador e zarpamos daquele trecho. Com mais uns minutos de telefone com o Jean, chegamos finalmente à casa dele.

A partir de Campinas, agora auxiliados pelas precisas dicas do Jean, que conhece como poucos as bifurcações entre São Paulo - Campinas - Guaxupé, a viagem transcorreu sem grandes emoções, apesar de uma passada direta no trevo de Casa Branca (não foi culpa do GPS, pois neste momento ele estava sob efeito dos nossos sedativos, sem voz e quase engavetado).

E Deus criou Guaxupé...

Na volta domingo à tarde, até Campinas foi um côco da Bahia (o Jean inclusive setou o GPS para nos deixar na JEL 712). Entretanto, foi pegarmos a Avenida Moraes Sales, recomendada pelo Jean, pularmos sem querer uma saída necessária à direita, pra coisa começar a urucubacar novamente. Ficamos rodando durante uns 10 minutos, até criarmos coragem pra pegar a entrada errada novamente. A caminho do Swiss Park, eis que o GPS mostrou realmente a que veio: Nos mandou subir em cima do canteiro, exatamente como acabo de escrever, em cima do canteiro. Se na Jaú a cow começou a ir pro swamp, aqui a manada inteira pastava alegre no brejo. Juramos pela família do bezerro que aquilo era o divisor de águas: Abandonamos o GPS, pedimos ajuda a um bêbado, que sugeriu que dirigíssemos de encontro a um muro de concreto, até que começamos a rodar pelos alpes suíços campinenses (Zurich, Luzern, Bern, Basel) e finalmente avistamos aquela que esquenta o frio no corpo do mendigo: ANHANGUERA (é certo que voltamos via Bandeirantes).

Já na terra da garoa, demos mais um centésimo de crédito ao GPS e, justiça seja feita, ele honrou este percentual: Nos ajudou a encontrar o viaduto Pedroso na Liberdade, que conhecemos como a palma da taioba. Passado o crédito, o GPS tentou nos levar adiante na contramão na esquina da Embratel na Brigadeiro, em uma subida exclusiva para ônibus. Mas aí já estávamos nas imediações da Rua dos Ingleses, na boca da JEL, e não caimos no conto do vigário digital.

Meia hora depois, já tomando café com leite e pau-a-pique na JEL, Pio, eu e Lu chegamos à conclusão de que havia algo de errado naquele GPS, como um código quebrado na sua Matrix. Exatamente. E o problema claramente mostrava ser este: O pobre do GPS não foi devidamente alimentado de ruas, cruzamentos, mudanças de direção e rotas atualizadas. E viver neste estado vegetativo em um país onde a cada eleição as direções e nomes de ruas e avenidas mudam como a procura por um canal assistível na péssima programação de TV fechada brasileira, este é um pecado capital passível de morte morrida. Se houver uma próxima como esta, é provável que o GPS não sobreviverá pra contar a história ao Neo.