O valor da sacolinha plástica

  • Postado por Ran

É cada vez mais comum lermos discussões acaloradas sobre o uso da sacolinha plástica. Esses entreveros chegam a unir ambientalistas e CEOs de redes de supermercados de um lado, e grupos de defesa do consumidor do outro lado da questão. Enquanto me solidarizo tanto com as pessoas defendendo a substituição das sacolas plásticas por alternativas menos nocivas ao meio ambiente, quanto com a clientela de supermercados demandando que as redes varejistas providenciem alternativas grátis às sacolas plásticas, não nego que uma sacola plástica poderia ter sido útil pra mim há uns 16 anos atrás.

Era uma sexta-feira soporífera como muitas sextas-feiras à tarde em Guaxupé, e a dona da empresa onde eu trabalhava acabara de me falar que no dia seguinte eu deveria pegar o ônibus e ir até Poços de Caldas comprar uns produtos. Fã de viagem que eu era, fui pra casa emburrado e dormi com o tique-taque do relógio marcado pra me acordar às 5h da manhã de sábado. Talvez de tão animado com a viagem, acordei mais cedo e me abasteci generosamente no café que eu mesmo preparei. Então, mais contente pela barriga cheia, desci a todo vapor a rua da catedral em direção ao ponto de ônibus no Taboão. Só quando parei no Bar do Ponto é que percebi que estava gelado à beça naquela manhã de julho e eu não havia levado blusa de frio. Se Guaxupé estava frio assim, imagine Poços.

Sem tempo pra pensar, eis que o ônibus apontou, eu subi, paguei a passagem, quem dirigia picotou o mês-dia-ano e me alojei em um banco no corredor, no meio do ônibus, lotado de gente vindo da rodoviária. E a viagem começou com a subida do calçamento escorregadio da ladeira do Taboão. Com a cerração aumentando e os vidros fechados, nem bem pegamos a BR-491 e já estava difícil enxergar o mundo lá fora. Além disso, o cheiro de óleo diesel e cigarro do Brasil pré-proibição de fumar em locais fechados começavam a saciar minhas narinas.

Passando Cabo Verde e sua beleza peculiar, senti um estrebucho intestinal devido a mistura esfumaçante acima. Felizmente, a pessoa sentada na janela limpava frequentemente o vidro com as mãos, o que me permitia ver uns flashes da paisagem verde e fria e momentaneamente espantar a náusea da barriga e da cabeça. No entanto, bem antes de começar a serra de Poços, ficou difícil esquecer o enjoo e eu já estava pensando no que iria acontecer em seguida. E nem tive tempo de pensar mais, só lembro que coloquei as duas mãos na minha frente, em forma de cuia, como para controlar o jato de vômito que saía igual filme de parque de diversão com todo mundo rodando e vomitando. Então, comecei a ouvir os gritos da pessoa no assento da janela, chamando todos os nomes não-santos e se contorcendo à medida em que meus jatos alimentares iam respingando no rosto e nas roupas da pessoa na janela. Eu tentava parar, mas não conseguia controlar a zona de gatilho. Havia comido de tudo, pão caseiro, bolo de fubá, figo em calda, café com leite, rosca de côco, rodela de abacaxi, e a impressão que tinha é que eu só pararia de regurgitar quando meu estômago retornasse ao estágio anterior às 5h da manhã.

Finalmente, da mesma forma que começou repentinamente, o vômito parou, ficando apenas os soluços. E foi aí que vi o campo de batalha. Quase não enxergava minha calça e sentia minhas meias molhadas, enquanto a poça pós-prandial jazia quase sem vida a meus pés. Olhando para o lado, vi que a pessoa na janela estava realmente com uma feição diferente, então pensei, "quanta falta faz uma sacolinha de plástico".

De repente, olhei pra baixo e não vi mais meu conteúdo gástrico. "Como pode ter desaparecido?", ponderei. Mas nem precisei me preocupar, pois de repente a êmese veio correndo do fundo do ônibus pra frente, e só assim percebi que estávamos na serra de Poços. Naquela altura, era praticamente o ônibus inteiro me olhando da mesma forma que a pessoa na janela me olhava. Também pudera, o calor humano havia acelerado o processo de liberação dos gases do vômito.

Finalmente, Poços apontou no horizonte, e eu, meio caquético devido o desequilíbrio dos eletrólitos, me dirigi escorregadio à escada e pedi pra apear no primeiro ponto dentro da cidade. Então desci e nem fiz questão de ver as demais pessoas dando tchau pra mim. Pra ajudar na limpeza, me dirigi à Fonte dos Macacos e me lavei com água de enxofre.